quarta-feira, 3 de junho de 2009

Eu matei Chico Buarque

Minha namorada era fã do Chico. É, o Chico Buarque. Ela não podia ler ou ouvir nada sobre ele que começava a desfiar sua ladainha, tecendo os elogios mais rasgados possíveis ao cara. Que os olhos, que a música, que a voz, que isso, que aquilo. Era assim todo dia, o dia todo. Certa vez eu contei, juro pra vocês que contei, ela disse que amava o Chico vinte e sete vezes num dia só. Vinte e sete. Não, não é pouca coisa. Nunca fui ciumento, mas vai dizer se não te incomodaria ouvir sua namorada, seu broto, seu docinho de coco dizendo a torto e a direito que ama um outro cara? Um cara, aliás, que tem a fama de conquistador barato, atleta de alcova e tudo o mais, um cara que estampou capas de jornais por ter sido o responsável pelo fim de um casamento. Pois é, era desse cara que eu ouvia falar o dia inteiro. E como se não bastasse ela falar dele o dia inteiro, ela ouvia Chico o dia inteiro. Ela ouvia Chico enquanto lia Chico, porque o megalomaníaco não achava suficiente ser compositor e bonitão, tinha que ser escritor também. Então era Chico no carro, era Chico em casa e, graças aos benefícios da modernidade e a um mp3 player, tínhamos que suportar a presença do Chico até no motel. Quando fizemos uma pequena viagem ao Rio de Janeiro, mesmo evitando a orla do Leblon à tarde, tive de aguentar o Chico no bar Garota de Ipanema, que obviamente fica em Ipanema, porque lá ele é nome até de sanduíche. Que foi, claro, o sanduíche escolhido por ela. "Ai, amor, nem acredito que tou comendo o Chico! Hahahahahaha!". Ela dizia isso babando e com cara de maníaca. Depois veio o livro. O tal do Leite Derramado, último lançamento dele. Ela dizia aos quatro ventos que queria "o leite derramado do Chico", omitindo propositalmente a palavra "livro", que é importante para o entendimento correto do discurso. Era difícil, era sofrido, mas eu suportava. Suportava porque a amava. Mesmo que às vezes agisse feito mulherzinha e, numa briga, reclamasse dizendo que ela gostava mais dele do que eu. "Claro que não, amorzinho", ela respondia. Mas eu sentia. Aqui no fundo eu sentia. A tragédia que estava por vir.

Um belo dia cheguei na casa dela e ela quicava de alegria. "O que foi, amor?", eu perguntei curioso. "Vou pra FLIP ver o Chico! Consegui aquela folga no trabalho, minha chefe liberou, mulher se entende, sabe como é! Amor, VOU VER O CHICO! Vou chegar perto dele e beliscar pra ver se ele existe mesmo! NÃO É O MÁXIMO?". Não respondi de imediato, recuei até a porta, amuado. Pela primeira vez, mesmo tendo de ouvi-la dizer o dia inteiro que o amava, pela primeira vez senti que isso seria um problema. Porque uma coisa era ela dizer isso a léguas de distância dele, outra coisa era estar perto, tão perto que pudesse, sei lá, cochichar no ouvido dele um "eu te amo" tão sensual que o cara não resistisse e a agarrasse ali, no ato, sem se importar com as câmeras voltadas contra eles e pipocando flashs para sites de celebridades. Deixando de lado aquela pretensa timidez para mostrar o devorador de mulheres que era. Os imaginei correndo pelas ruas de Paraty tentando fugir dos paparazzi atrás de um lugar escondido onde pudessem saciar aquele desejo. Quis bater nela. Não, não quis, ela era meu docindo de coco, mas a projeção mental dela sussurrando coisas no ouvido dele me deixou burro. "Eu vou com você. Vou ligar pro meu chefe, negocio algumas folgas, compenso quando voltar, mas vou com você". Ela, incrivelmente e contrariando minhas expectativas, pareceu genuinamente feliz. "Ai, que bom, amor, nossa segunda lua-de-mel! Vou reservar suas passagens. Ai, nem acredito que vamos pra FLIP. É tão romântico!" e continuou murmurando coisas bonitinhas em direção ao quarto. Ainda um pouco desconcertado pelo excesso de informação visual que tive em coisa de cinco segundos, liguei pro chefe e inventei uma desculpa qualquer pra passar uns dias fora, passei na casa do meu pai pra avisar que ia viajar em alguns dias e liguei pra um amigo pra tomar uma cerveja.

"Então ela vai atrás do Chico e você vai atrás dela? Que historinha ridícula", meu amigo disse assim que confessei minhas angústias, confissão essa estimulada pelas garrafas de cerveja vazia que já se acumulavam. "Você acha ridículo porque sua namorada te ama e te idolatra sobre todas as coisas. E você ainda reclama. Queria ver se estivesse no meu lugar", eu retruquei, ressentido. Queria que ele ficasse do meu lado e ajudasse a diminuir a sensação mulherzinha que estava instalada desde a tarde. "Imagina só: sua namorada é fã de um cantor qualquer, sei lá, o Caetano e...não, o Caetano não vale. Hum. Deixa eu ver um cantor bonitão...ah, já sei! Sua namorada é fã do Fábio Jr. Ela fica dando gritinhos histéricos toda vez que vê o cara na TV. E um belo dia ela fala que conseguiu ingressos para uma festa private na piscina da casa dele. Você não ficaria preocupado? Não daria um jeito de ir junto com ela?", eu perguntei, indignado. "Primeiro de tudo: o Fábio Jr. não é bonito. E, quer saber? Até iria com ela sim, não é legal deixar a namorada viajar sozinha por aí. Mas se ele se engraçasse pra cima dele eu enchia ele de porrada. Até matar".

Dias depois estávamos em Paraty para a Feira Literária. A mesa literária que Chico dividiria com Milton Hatoum era só na sexta, terceiro dia de Feira, então aproveitamos pra conhecer a cidade. Minha namorada estava feliz e apaixonada como nunca, mas eu me sentia mais triste e infeliz com o passar das horas, por saber que mais cedo ou mais tarde ela estaria perto dele. E doida do jeito que era, bem capaz mesmo que sussurrasse o "eu te amo" no ouvido dele.

Na tarde de sexta, dia da mesa, deixei minha namorada rodar sozinha pela feira e me tranquei no quarto. Não conseguia esquecer a excitação dela por saber que estava no mesmo lugar que ele, que assistiria a uma mesa literária com ele e logo depois conseguiria autografar seu livro, chegar perto, dar um abraço, "ver aqueles olhos ardósia pra ter certeza que são de verdade". Depois de muito pensar, me preparei para o pior. Quando minha namorada voltou ao quarto da pousada pra se arrumar, eu já estava num mau humor infernal e louco pra terminar com aquilo. Devo até ter sido grosso com ela em algum momento, porque reclamei do fato dela se atrasar enquanto se arrumava, coisa que nunca aconteceu, mas eu tinha pressa. Queria só por fim àquilo e dormir tranquilo, com a certeza que ele jamais chegaria perto dela.

E aconteceu. Não que eu não esperasse, afinal estava com o revólver que peguei escondido do meu pai. Não, não posso dizer que eu não queria matá-lo. Mas foi culpa dele. Quando ela pediu um autógrafo, ele sorriu. Não precisava ter sorrido. E aconteceu. Ela estendeu o livro, ele sorriu e eu o matei. Matei Chico Buarque.


Daniela Andrade Rodrigues

Já pensamos na linguagem pra animação. E existe a possibilidade de inscrevê-la no Festival do Minuto, o que levaria o texto acima a possíveis alterações. Mas, por ora, o projeto "Eu matei Chico Buarque" tem esse texto, com narrativa em off.

7 comentários:

Italo Rocha disse...

Lindo, lindo!
Em animação esse texto tá dando uns quatro minutos.
Vc mandou vr, gata!

Rodrigo Rodrigues disse...

Adorei! Ficou ótimo!!

Marcelo Zuza disse...

muito legal, fico imaginado o carinha com uma cara de satisfação fazendo carinho na arma depois de matar o chico
hshsss

Milena Quiroga disse...

Adorei o texto!

Kaline Rossi disse...

Lindo! Imaginei todas as cenas!

Buffalo disse...

Gostei! Muito legal! Porém acho que o final poderia ter sido melhor trabalhado, pois frustrou um pouco a expectativa criada pelo texto.

Flávia disse...

Ow, o pior que eu sou igualzinha a essa namoradinha chata e histérica... fui lendo o texto e me identificando com ela... sou muitoooo assim, mas não largo o Chico... rsrs
Muito bom o texto. Parabéns!!